O esvaziamento crônico da vida…

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Bárbara Vilaça

Entre os anos de 2008 e 2013, o número de usuários de antidepressivos e ansiolíticos aumentou em 48% no país. Eu faço parte da estatística. Tenho 24 anos e sinto como se às vezes o mundo simplesmente fosse desabar sobre mim, como se não pudesse falhar e qualquer situação fora do meu controle causa pânico e reações desmedidas. Não sei precisar o motivo dessa sensação, mas sei que preciso contê-la.

Diariamente muitos jovens como eu olham pra pílulas em suas mãos e a empurram com água goela abaixo. Inúmeros são os motivos: frustração na vida profissional, infelicidade no amor, insônia, dificuldade de levantar da cama, vontade de sumir ou simplesmente pedir demissão… problemas variados de uma sociedade que já não sabe conviver consigo mesma. É gritante, consultas ao psicólogo e psiquiatras se tornaram mais frequentes, assim como a reclamação constante da falta de tempo, insegurança, medo e de uma sensação inominável de impotência ou vazio. 

É o esvaziamento crônico da vida. Estamos constantemente tentando achar algo que supra uma lacuna interna com que nos deparamos todos dias. Há quem procure um amor, há quem procure uma nova profissão, há quem faça fila pra entrar na igreja e ouvir palavras de consolo e há quem tome remédios. São várias as possíveis ‘soluções’. Alguns insistem que as viagens podem curar todos os problemas, e outros idealizam um dia poder se entregar a elas como o tal fulano que postou uma foto linda de Milão no instagram. A verdade, nós no fundo sabemos, que por mais que viajar seja magnífico, esse cara também levou seu drama para as férias. 

Pensando a tecnologia, as redes sociais, as selfies que se espalham na velocidade da luz, só não vê quem não quer: as pessoas tentam vender uma imagem de felicidade que não convence. Todos extremamente felizes em comer uma pizza, numa relação perfeita com o namorado, ou em paixão correspondida com a solteirice vidaloka. Todos se sentem completos, bem sucedidos, alegres o suficiente para dar bom dia pra segunda-feira ou boas-vindas a um novo mês. O problema não é só a nítida incredibilidade disso tudo, mas o fato é que, querendo ou não, passamos a nos convencer de que a vida dos outros é incrivelmente mais feliz ou interessante que a nossa. Notícias pop-upeam na nossa frente, “uma criança de 5 anos fala 4 idiomas”, “um jovem consegue montar 10 cubos mágicos em 30 segundos”, “um médico fez uma criança voltar a ouvir”, uma menina de 17 anos ganhou o Nobel”, e você não é especial em nada. Nos sentimos somente mais um com uma profissão medíocre sem grande utilidade, com nenhum talento excepcional que nos leve a cantar música lírica no The Voice alemão. Nada. 

Diante de uma vida cada vez mais frustrante e conturbada, seja pela avalanche de informação, seja pelo mercado de trabalho massacrante, a pressão para ter um diploma, ou a necessidade de se prestar a fazer algo que não nos desperta qualquer prazer, todos, ou pelo menos a maioria, passamos o dia contando as horas pra ir pra casa. Durante o expediente, nos pegamos fazendo planos mirabolantes para quando enriquecermos ou simplesmente pudermos nos dedicar ao jardim, ao gosto pela marcenaria, ao instrumento deixado no canto do quarto, ao livro que aguarda pra ser lido, ao filho que espera na porta da escola até a noite. É como se estivéssemos presos num ciclo sem volta em que todos parecem querer gritar de desespero, mas seguem o ritmo como se fossem obrigados a mantê-lo. Por que não nos olhamos nos olhos e dizemos “eu não aguento mais, vamos mudar as regras, vamos nos acalmar”? Acredito que muitos respirariam aliviados ao ver que não vivem uma guerra solitária.

Enquanto isso não acontece, ao fim do dia, com muito menos expectativas e cada vez mais frustrações, me questiono o que diabos estou fazendo da vida, pra que isso serve, se quero mudar o mundo, se quero me mudar de país, se quero só dormir mais cedo e parar de pensar. Acordo pela manhã, muito antes do que gostaria, tomo dois comprimidos, 300mg de não sei quê, 10 mg de outra fórmula qualquer e vou encarar a vida, sabendo que é uma composição química que me mantém nos eixos, porque caso contrário, o mundo continua o mesmo e sou eu quem desabo.

Bárbara Vilaça tem 24 anos, é formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, é professora e escreve nas horas vagas. Atualmente estuda literatura brasileira contemporânea e tenta entender o mundo ao seu redor.