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Enfermeira de UTI de covid-19 relata como a vida mudou desde os primeiros casos em SP

Paula Paiva Paulo, G1 SP

Quando decidiu cursar faculdade de enfermagem, a profissional de 38 anos que hoje trabalha em um grande hospital da rede privada de São Paulo, disse que tinha o ideal de um dia ir para uma guerra, ser do Médico Sem Fronteiras, ou ir para uma missão na África. Ela não precisou. Dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) deste hospital, ela vê a realidade de pacientes que não param de chegar infectados pelo novo coronavírus. “A guerra veio até mim”.

Nos últimos dias, a enfermeira viu mudar tanto sua rotina de trabalho – agora está sempre de máscaras e óculos de proteção – e também em casa, já que, antes de correr para o banho, não beija o filho de dois anos ao chegar em casa.

Antes, ela dormia por volta das 21 h, mas agora só consegue dormir depois de meia noite. A profissional de saúde trabalha em uma escala 12×36, o que são 12 horas de trabalho e 36 de descanso. Nesta sexta-feira (27), quando conversou com o G1, era dia de folga. “Hoje, quando começa a dar uma cinco da tarde, eu já começo a ficar ansiosa, porque amanhã eu estou de plantão. Tenho dormido menos por causa da ansiedade e fico com insônia”.

Em depoimento ao G1, a profissional conta o dia a dia de seu trabalho dentro da UTI, e desde quando percebeu que as coisas tinham mudado.

Equipe do setor de emergência adulto posa com mensagem no Unimed Sorocaba - Hospital Dr. Miguel Soeiro, em Sorocaba (SP) — Foto: Pâmela Mariana Martins Costa Rocha/Arquivo pessoal via VC no G1

Equipe do setor de emergência adulto posa com mensagem no Unimed Sorocaba – Hospital Dr. Miguel Soeiro, em Sorocaba (SP) — Foto: Pâmela Mariana Martins Costa Rocha/Arquivo pessoal via VC no G1

Leia o depoimento completo

“Eu comecei a sentir que as coisas iam mudar quando eles isolaram a nossa maior unidade. Colocaram várias avisos, ‘a partir daqui não entre’, e a partir desse momento eu vi que realmente estava acontecendo alguma coisa diferente. Nesse dia, lá pelo dia 5 ou 6 de março, também começaram treinamentos a respeito de colocação e retirada de equipamentos de proteção individual.

Eu senti que estava diferente porém a minha UTI não estava recebendo esses pacientes ainda, então continuei tranquila.

Depois, teve uma situação que foi bem divulgada pela mídia, do casamento da irmã da blogueira, a [Gabriela] Pugliesi, e chegaram muitas pessoas no Pronto-Socorro após o evento. A gente começou a ficar meio assustado porque nesse dia, a noite, chegaram muitos pacientes no PS e vários fizeram o teste, então foi um momento de alarde para a gente.

Mas, para mim, o dia que realmente pegou foi o dia que entrei nessa unidade onde estavam os pacientes com Covid confirmado, no dia 20 de março. Eu não sabia, eu saí da minha casa como se tivesse ido para o meu plantão normal, ficar com os pacientes graves de UTI, mas não os com Covid. Quando eu cheguei, a gente tem uma escala diária, e eu descobri que estava escalada nessa unidade.

Quando você vê na televisão, quando você lê as notícias na internet, não é a mesma coisa de quando você entra dentro do quarto e se depara com a paciente entubada, precisando de droga vasoativa, brigando com a ventilação mecânica, e foi bem difícil. Assim, eu já estou acostumada a essa realidade de UTI, para mim não é uma coisa assustadora, mas quando eu sabia que era o Covid positivo, eu fiquei com medo.

Esse dia tinham cinco pacientes, quatro estavam entubados, e um estava com o uso de uma máscara de oxigênio, porém ele foi entubado no final do plantão. A partir desse dia para cá teve uma mobilização gigantesca, tanto da contratação de pessoas, como de treinamentos e protocolos para atender essas pessoas.

Agora a gente usa aquela máscara N95 e o óculos de proteção 100% do tempo dentro da UTI, a gente não fica sem esses equipamentos. E assim, não é uma coisa muito confortável, então também é uma coisa que no dia a dia pesa um pouco, nosso rosto fica todo marcado, o óculos pesa na orelha, machuca. A gente fica com o rosto muito marcado, e são muitas horas usando o equipamento.

Lá dentro da UTI a gente tem um banheiro para tomar banho, porém, nesse dia, eu não tinha ido preparada. E a sensação, mesmo que você tome banho, parece que você continua carregando o vírus ainda, sabe?

Então, eu voltei para casa, eu passei álcool gel em tudo que passei, no carro, nas maçanetas das portas. Quando entrei em casa, tirei minha roupa antes de entrar, no hall do elevador mesmo, eu tirei tudo e fui direto para o banheiro tomar banho. Nesse dia meu filho veio querendo me abraçar, tadinho, chorou, porque passei correndo e nem falei com ele.

De uma semana para cá, eu vejo que esses pacientes não melhoram. De todos esses pacientes que a gente entubou, a gente não conseguiu tirar ninguém da intubação ainda. Isso é difícil porque você não vê progressão, você não vê o paciente evoluir de uma forma positiva. Não que ele piore, mas ele continua naquela mesma condição.

Parece que ele não melhora, então isso é muito ruim, porque gera mais ansiedade, a gente vê o número de pessoas que estão contraindo a doença e vão precisar de leitos e você não consegue, sabe, gerar um fluxo de entrada e saída.

Os pacientes têm bastante medo. O paciente que eu falei que estava com uma máscara de oxigênio, que foi entubado, aconteceu uma situação muito triste e que mexeu bastante comigo. Ele estava consciente e a gente precisou avisar para ele que ele ia ser entubado, e ele fez uma chamada de vídeo com a família. Então a gente estava no quarto enquanto ele estava se despedindo dessa família. Se despediu do filho, da esposa, chorou, ficou muito emocionado.

E aí foi muito triste, todo mundo ficou super emocionado porque assim, você vai ser entubado, e talvez você nunca mais acorde né. Quando entuba, a pessoa recebe medicamentos para ficar sedada, em coma induzido. A gente fala que é para acoplar melhor [o tubo], para conseguir fazer o pulmão ventilar adequadamente, porque se ele fica acordado, sem sedação, o tubo incomoda muito. [O paciente segue entubado].

Acho que ninguém estava preparado para isso. E eu fico mais preocupada porque acho que ainda vai piorar muito antes de começar a melhorar.

Quando eu decidi fazer faculdade de enfermagem tinha aquela coisa toda ideológica, de querer um dia ir para uma guerra ou participar do Médico Sem Fronteiras, sabe? Fazer uma missão na África… E aí até falei para um amigo, acho que nem vou precisar ir para a guerra fazer uma missão, acho que minha guerra vai ser essa daqui. Não precisei fazer nada para enfrentar, a guerra veio até mim.

Então, o que a gente pode pedir para as pessoas é para elas ficarem em casa o máximo que elas puderem, tentar ajudar a gente que está ali na linha de frente. Porque o que eu posso fazer é ir para a UTI e ajudar as pessoas que estão lá. Quem não trabalha com isso pode fazer sua parte e ficar em casa.

Não disseminar o vírus também é uma função importante nesse momento.”

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