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Crônica; “Eu vim de lá do interior…”

Foto: Valdinho Lima

Benízio Filho – Duy

A vida no interior tem certas particularidades nunca entendidas por quem mora na capital ou em grandes metrópoles e isso ficou bem claro para mim quando em 2007 fui morar em São Paulo – SP.

Saudar os transeuntes dando as horas: “Bom dia, boa tarde ou boa noite”! “Como vai seu povo?” “Dê lembranças a fulano!”

As visitas

Assim,como era de costume, as visitas dominicais (fiz muita com meu avô materno o saudoso Antônio Clarinha), todo domingo após o café da manhã, ganhávamos o mundo, a zona rural para visitar “os camaradas” do meu avô e, detalhe: sempre caminhando.

E lá íamos nós, sr Antônio Clarinha, de calça e camisa de botão, boné e uma foice pequena (cutelo) na mão e eu, que também tinha que usar boné (naquela época, década de 90, meu avô já se preocupava com o sol).

Assim foi minha infância toda, às vezes eu até me chateava, pois queria mesmo era jogar videogame com os amigos, mas não entendia que minha companhia era a melhor companhia para meu avô. Só descobri isso muito tempo depois com uma amiga sua que me relatou, quando na época eu já cursava faculdade, enfim.

As ofertas

Toda visita, por mais rápida que seja é de costume de quem mora no interior ofertar além de sua casa, refeições e, diga-se de passagem, generosas refeições ou no mínimo um doce de sobremesa, um bolo, um café ou até mesmo água. Lembro que meu avô sempre falava: “se um dia a gente chegar na casa de um camarada e ele trouxer a água em um copo manchado, beba, nunca reclame, só beba a água.” Confesso que não entendia e nem aceitava, mas na época existia um respeito enorme pelos mais velhos, e em contrapartida uma confiança enorme entre nós e os mais velhos. Ai de quem não quisesse consumir nada, para o anfitrião era uma ofensa enorme. Ao visitar a casa de uma pessoa que mora no interior, não rejeite as ofertas, por mais satisfeito que esteja, coma ou beba o mínimo possível mas aceite, o contrário é dizer em outras palavras que não gostou da casa, do ambiente ou da pessoa – coisas de interior.

A Gratidão

Quem já foi funcionário público no interior e nunca ganhou um “cozinhado” (uma porção) de feijão verde, fava, inhame, jerimum, uma galinha, que atire a primeira pedra. O povo da capital nunca entenderá que por mais que se explique ao homem do interior que o funcionário público está exercendo sua obrigação e recebe para atender bem, ele sempre que for bem atendido fará questão de retribuir com o pouco que tenha, isso não é propina, isso é gratidão. E caso esse mesmo homem do interior reconheça um esforço seu a mais, não se admire se você seja convidado para ser padrinho de um filho dele.

As Autoridades

As pessoas exercem um respeito mútuo entre si, e numa hierarquia que não consigo explicar o homem do interior tem como autoridades máximas de uma cidade: O prefeito, o Juiz de direito, o promotor de justiça, policiais militares e policiais Civis, o padre,

o gerente do Banco do Brasil (que na época era o único banco que existia nas pequenas cidades do interior) e a professora.

Os Personagens

Assim para que exista uma partida de futebol tem que existir no mínimo a bola, o campo, o juiz e os times, cidade de interior que se preze tem que por obrigação ter a composição da sociedade com personagens indispensáveis, chegam a ser figuras folclóricas:

Doido – que vive na rua, não faz mal a ninguém, mas é querido por todos;

Bebim – daqueles inconvenientes que ninguém aguenta, chega nas horas mais indevidas e é responsável pelas situações mais inusitadas;

Rezadeira – reza olhado, peito aberto, espinhela caída, fogo selvagem e por aí vai, seu traje geralmente tem um vestido, um lenço na cabeça, um galho de arruda no ouvido e um galho de pião roxo na mão;

Cabaré – composto pela rapariga mais velha e dona do mesmo, um cafetão, um gigolô e um portador de recados, comprador de cigarros e etc.;

Sanfoneiro – responsável pela animação das festas da cidade;

Parteira – responsável pelo nascimento de quase toda cidade;

Médico – geralmente clínico geral, de uma confiança ímpar, atendendo a toda hora e aonde estiver, interessante é que esse médico é padrinho de 90% da cidade (lembram do que falei antes?);

Comerciante – esforçado, ousado, sério e dono das cadernetas de fiado. É quem abastece a cidade no segmento que atua;

Um quebrado – o mesmo comerciante que um dia mandou na cidade, não soube separar lucro do faturamento, quebrou, mas não perdeu a pose, se acha ainda dono do mundo;

Bodega ou venda – Geralmente fica na ponta da rua, e é lá onde o agricultor ao chegar na rua guarda sua faca, evitando que a polícia o prenda, um sortimento de coisas em suas prateleiras que até hoje não entendemos como ele sabe o preço de tudo e controlava tamanho estoque sem nenhum software de computador;

Político – tem duas espécies: um é sério, esforçado e vive para ajudar seu povo, muitas vezes acontece de tirar um único botijão de gás que tem em sua casa – contra a vontade da esposa – mas fazer o quê? Seu eleitor está precisando. O outro é malandro, corrupto e sempre vive nas negociatas, embora seu fim de carreira é digno de pena;

Dono da Farmácia – na maioria das vezes sem formação em farmácia, mas de uma pontaria nas indicações que faz para as doenças de seus clientes inacreditável;

Costureira – responsável pela moda da cidade e disputadíssima pelas famílias tradicionais, é difícil achar ela sem serviço;

Doceira – é ela quem produz aquele doce de mamão, aquela cocada, ou no caso da nossa cidade uma especiaria que morro de curiosidade para saber o sabor, confesso que é um desafio meu preparar a famosa “beira seca” do saudoso Zé Pedra. Nada mais é do que um tipo de tapioca recheada com um mel que tem um toque de ardência, acredito eu que seja gengibre, vamos às pesquisas;

Professora – responsável pela formação de quase todos, exigente, linha dura, elegante e de uma caligrafia ímpar, a mais amada pela molecada.

Enfim, com certeza esqueci aqui de figuras existentes e não citadas, mas a memória é pouca.

A vida na cidade do interior tem seu preço e seu encanto. Agradeço a Deus todos os dias por ter nascido no interior e vivido boa parte do meu tempo aqui na minha João Alfredo -PE, como o nosso amado Frei Damião de Bozzano nos apelidou carinhosamente de CIDADE FELIZ.

Engraçado que minha intenção era escrever sobre outro assunto, mas acabei sendo invadido de uma nostalgia e de um prazer em viajar no tempo e compartilhar aqui tais relatos, muito se em ainda para escrever, aqui foi apenas um “taco” do que existe em nossas amadas cidades de interior, povo de coração enorme, valores preservados, onde ainda se vive.

Amo a vida no interior!

Viva o nosso torrão!

Viva nosso povo!

Viva nossa história!

Benízio Fh DUY – filho de Benízio de Caju e Rilda de Antônio Clarinha

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