Partiu o segundo mosqueteiro. Antônio Carlos Heliodoro levou para o túmulo o melhor dos nossos sonhos juvenis

Por José Nivaldo Junior*

Precisei esperar mais de 24 horas para me recompor. A notícia, muito gentil e cuidadosamente enviada pelo amigo familiar Eduardo Adrião, me pegou em cheio. Não pela morte em si do médico Antônio Carlos Leal Heliodoro, aos 79 anos, em João Alfredo, PE, sua terra de adoção. Tratou-se, voz geral, de um descanso depois de longa e sofrida enfermidade. Mas pelo que de simbólico ela carrega. Para nossas vidas. Para nossos sonhos. Para nossas frustrações geracionais. Para a dura realidade que enfrentamos. País que sonhamos juntos salvar e que deu nisso que está aí. Carcomido. Degradado. Com valores contaminados. Uma lástima sobre a qual tenho dificuldade em dialogar com os meus netos mais velhos. Mas, voltando no tempo.

imagem2

1968 – O ano que nunca acabou

Eu olho o que a gente fazia na Surubim daquela época e, sinceramente, fico impando de orgulho. Região, o jornal, que as vezes era A Região, é um desses fenômenos históricos difíceis de entender. Foi um projeto construído a muitas mãos. Não fui fundador. Embarquei no percurso. Aprendi com os pioneiros o suficiente para viver de comunicação até hoje. Agora, caros leitores, vejam só a qualidade do produto que a gente fazia nos anos 1960. De Surubim para o mundo. Ainda hoje seria moderno. Reza a lenda que o The New York Post ou o Washington Post, não há unanimidade sobre isso, “copiou” nossa manchete 32 anos depois, cravando: “Em quem você aposta, Bush ou Gore”. Sorry periferia, como diria o grande Ibrahim Sued. Jovens, consultem o Google, vale a pena saber quem foi Ibrahim.

imagem3

Tergiversando

Estou comendo a papa pelas beiradas para não enfrentar o miolo quente: ao partir, Antônio Carlos levou junto um pedaço das nossas vidas e dos nossos sonhos. Um pedaço da nossa história. Fazia décadas que não sorvia de sua sabedoria irônica, de sua inteligência, domada para construir uma vida pessoal feliz e vitoriosa. Admirei Petrônio, seu extraordinário pai. Homem de inteligência primorosa. Fui amigo de alguns dos seus irmãos. A vida nos distanciou, nos perdeu de vista e abraços. Dos mosqueteiros, ainda vejo Flávio, de vez em quando, afeto imenso para tão pequena convivência. De Álvaro, tinha notícias do grande sucesso profissional no Sul do País, até a triste partida. Foi o primeiro a se ausentar do planeta. Era o mais sonhador, de alma impoluta. Engraçado, pensando agora neste momento: dos mosqueteiros, três viraram médicos. Eu fui puxado para a mesma trincheira da comunicação que na juventude nos uniu para sempre. Realmente, Alexandre Dumas tem razão: os três mosqueteiros são quatro. Foram, até anteontem.

imagem4

Adeus, amigo

Descansa em paz, pela eternidade. Os sonhos, dizem, não morrem jamais.

*José Nivaldo Junior é publicitário, especializado em marketing político. Historiador. Ex-professor da UFPE. da Academia Pernambucana de Letras. Diretor de O Poder.