Por Júlio Lóssio*
Os recentes resultados do ENADE para os cursos de Medicina no Brasil não são apenas estatísticas acadêmicas. Vão além disso: um sinal de alerta vermelho para a saúde pública. Os dados revelam um fosso crescente entre a entrega do diploma e a capacidade real de um novo médico exercer a profissão com a segurança que o paciente exige.
Como médico e ex-gestor público, vejo com preocupação que o ensino médico está se tornando, em muitos casos, um produto de prateleira, onde a teoria sobrevive em laboratórios modernos, mas a prática agoniza por falta de leitos e vivência real.
A Medicina é uma ciência de observação e repetição. Não se forma um clínico ou um cirurgião apenas com simuladores e telas de alta definição. A fixação dos conceitos teóricos depende, visceralmente, da presença permanente do aluno no ambiente hospitalar. É no “chão da enfermaria” que se aprende a humanidade e a técnica que os livros não conseguem traduzir.
O contraste é pedagógico e cruel. De um lado, instituições como a Santa Casa de São Paulo e o Albert Einstein mantêm a excelência por possuírem ecossistemas assistenciais próprios e robustos. Do outro, vemos unidades de grandes grupos educacionais, como a Estácio de Sá em Juazeiro (BA), amargando notas mínimas.
Por quê? Porque sem campo de prática próprio, o aluno vira um “turista” em redes municipais saturadas, onde sua presença é muitas vezes vista como um estorvo, e não como parte do corpo clínico em formação.
Aqui no Vale do São Francisco, o exemplo é definitivo: o curso de Medicina da UNIVASF, ancorado no Hospital Universitário (HU-UNIVASF/Ebserh), alcançou a nota máxima (5). Enquanto isso, instituições privadas vizinhas, apesar das mensalidades vultosas, patinam na nota mínima por absoluta carência de infraestrutura hospitalar própria.
Precisamos enfrentar o elefante na sala: o curso de Medicina tornou-se a “mina de ouro” do empreendedorismo educacional brasileiro. Não é crime lucrar com educação, desde que o serviço entregue seja condizente com a responsabilidade que a profissão carrega. Se as mensalidades são as mais altas do mercado, é imperativo que o investimento em infraestrutura seja igualmente robusto.
Minha proposta é clara, sensata e urgente: o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde devem estabelecer um novo marco regulatório, que exija das faculdades particulares de Medicina a obrigatoriedade de implantar, em um prazo de dois anos, um Hospital-Escola próprio. O perfil desse hospital não seria aleatório, mas definido pelos gestores do SUS (Município, Estado e União), focado em suprir as carências de média e alta complexidade de cada região.
Para os que dirão que o investimento é inviável, aponto o caminho: linhas de financiamento via BNDES, tendo como garantia real os recebíveis das próprias mensalidades. É a “vacina” financeira para um mal estrutural.
Dessa forma, faríamos do atual problema uma solução definitiva e histórica. De um lado, garantiríamos que nenhum médico saísse da faculdade sem ter passado milhares de horas dentro de um hospital de verdade. De outro, entregaríamos à população brasileira centenas de novos hospitais financiados pelo setor privado, desafogando o SUS e salvando vidas.
A formação médica não pode ser refém da maximização de lucros. Se o ensino é privado, a responsabilidade é pública. É hora de exigir que quem vende o sonho da Medicina, entregue, também, a estrutura necessária para que ele não se transforme em um pesadelo assistencial.
*Médico e ex-prefeito de Petrolina