“Chico”, 40 anos jogado no lixo dentro de uma caixa em Recife

Por Papagaio Pirado – Durante quarenta anos, a vida de Chico foi cercada pelo aroma de café fresco e pelo som do rádio de pilha de Dona Lurdes, uma costureira de mãos ágeis que morava em uma pequena casa de muros baixos no bairro de Casa Amarela, em Recife. Chico não era apenas um animal de estimação; ele era o confidente de Lurdes, a testemunha silenciosa de suas alegrias e a voz que preenchia o vazio deixado pela viuvez precoce. Ele sabia cantar o hino do Santa Cruz e assobiar frevos antigos que faziam Lurdes sorrir enquanto costurava bainhas. Eles eram uma unidade, dois seres que o tempo moldou para se entenderem apenas pelo olhar.

No entanto, o tempo é implacável. Dona Lurdes partiu calmamente em seu sono aos 82 anos. No dia seguinte ao enterro, a casa foi invadida por parentes distantes, interessados mais no valor do terreno do que nas memórias ali guardadas. Para eles, Chico era um estorvo, um ‘bicho barulhento’ que exigia cuidados que ninguém estava disposto a oferecer. Sem qualquer pingo de compaixão, um dos sobrinhos colocou o velho papagaio em uma caixa de papelão fétida, lacrou-a com fita adesiva e a deixou junto a um monte de sacos de lixo na calçada, sob a promessa cruel de que ‘a natureza cuidaria dele’.
Chico passou horas naquela escuridão sufocante. O calor de Recife transformava a caixa em um forno, e o barulho dos carros o assustava. Ele sentia fome, sede e, acima de tudo, uma tristeza que nenhuma ave deveria conhecer. Ele tentou bicar o papelão, mas seu bico estava fraco. Em um momento de desespero, ele começou a repetir a frase que Dona Lurdes sempre dizia quando ele estava assustado: ‘Mainha tá aqui, Chico… Mainha tá aqui’. Sua voz, antes vibrante, agora era um sussurro rouco e quebradiço que se perdia no barulho do trânsito.
Foi quando o caminhão de lixo estacionou. Severino, um gari de 52 anos com o rosto marcado pelo sol e um coração maior que o mundo, estava prestes a arremessar a caixa na prensa hidráulica. Algo, porém, o fez parar. Um som abafado vinha de dentro do papelão. Não era o som de um animal selvagem, era um pedido de socorro com entonação humana. ‘Me ajuda… mainha…’, ouviu Severino. Suas mãos calejadas rasgaram a fita com urgência. Quando a caixa se abriu, seus olhos encontraram os olhos amarelados e cansados de Chico. O papagaio, trêmulo e desidratado, não tentou voar. Ele apenas inclinou a cabeça, como se aceitasse seu destino.
Severino não pensou duas vezes. Ele envolveu Chico em sua própria camisa de uniforme, ignorando o protocolo do trabalho. Levou o pequeno refugiado para casa, uma morada simples na Imbiribeira. Lá, com a ajuda de sua esposa, Maria, começou o lento processo de resgate. Eles usaram uma conta-gotas para hidratá-lo e ofereceram pequenos pedaços de banana e girassol. Nos primeiros dias, Chico permanecia imóvel, encarando a parede, sentindo a ausência do rádio de Dona Lurdes e do cheiro de café. Ele estava em luto profundo, uma depressão que atinge as aves de vida longa quando perdem seu bando.
A virada começou duas semanas depois. Severino, voltando do trabalho, começou a assobiar uma melodia que ouvia na rádio. Chico, que estava silencioso há dias, subitamente esticou o pescoço e respondeu com uma nota perfeita. Maria chorou de emoção. A partir daquele dia, Chico entendeu que não fora descartado pelo mundo, apenas transferido para um novo capítulo de amor. Severino construiu um poleiro de madeira de reflorestamento no terraço, onde Chico pode ver o movimento da rua e receber o carinho de todos os vizinhos que agora conhecem sua história de superação.
Hoje, Chico completou 41 anos. Ele não canta mais apenas para Lurdes, ele canta para Severino, a quem ele agora chama carinhosamente de ‘Painho’. Sua plumagem verde voltou a brilhar e ele recuperou o vigor. A história de Chico nos ensina que a idade não diminui o valor de uma vida e que, mesmo quando somos jogados no lixo pela indiferença, o amor de um desconhecido pode ser a mão de Deus nos resgatando para uma nova primavera. O pedido de socorro mais lindo do mundo não foi por comida, foi por dignidade, e ele foi atendido pelas mãos de um gari que enxergou tesouro onde outros viram descarte.