Atenção Luciano Huck: não entre não, que é fria…

Por: Vandeck Santiago

O repórter da TV Globo Francisco José poderia ter sido, numa projeção otimista, prefeito do Recife, ou então, em projeção pessimista, pelo menos candidato. Ele foi convidado para disputar a eleição por um dos grandes partidos do estado na época, mas recusou. Isso aconteceu em 1988, e a história me foi contada pouco tempo depois do convite pelo deputado líder do partido que o queria no palanque.

Ele já era um repórter nacionalmente reconhecido, e protagonizara um ano antes, em 25 de setembro de 1987, um episódio marcante: durante assalto a uma agência do Banco Econômico, em Boa Viagem, os assaltantes fizeram reféns, entre os quais uma mulher grávida. Ele se ofereceu para ficar no lugar dela. Os bandidos aceitaram a troca na hora. Há uma cena assustadora do ato: os assaltantes saindo encapuzados da agência, de armas em punho, empurrando os reféns, Francisco José à frente. No final, graças a Deus, tudo acabou bem. Os assaltantes acabaram presos e nenhuma de suas vítimas foi ferida.

Lembro dessa história, agora, ao ver a romaria que se está fazendo à casa do apresentador Luciano Huck, para que ele concorra à Presidência da República. Em momento de descrédito na política, ele pode representar “o novo”, o camarada que não foi tocado pela contaminação que estamos acompanhando dia a dia.

Quero crer que o apresentador seja uma pessoa inteligente e com experiência suficiente para saber que quem bate à sua porta com uma ficha de filiação dizendo “você é o cara” está querendo aproveitar-se de sua popularidade como celebridade da TV. Talvez até imaginando que sua candidatura não seria para ganhar, e sim para atrapalhar este ou aquele candidato, e de quebra conseguir fazer uma boa bancada de deputados. Huck sabe também que o convite não é para uma nomeação, é para uma eleição.

Continua…

Em 1986 o empresário Antonio Ermírio de Moraes, um do homens mais ricos do Brasil, aceitou concorrer ao governo do estado de São Paulo. Disputou pela coligação União Liberal, que reunia PTB, PL e PSC. Perdeu para Orestes Quércia, do PMDB. Antonio Ermirio ficou tão (negativamente) impressionado com o que viu na campanha que deixou a política. Nunca mais se candidatou. Foi escrever peças retratando o mundo da política e ganhar honestamente o seu dinheiro em suas empresas.

Outro exemplo é de 1989, na primeira eleição presidencial pós-ditadura. A bola da vez das celebridades foi Silvio Santos. Ele encantou-se pelo canto das sereias e entrou na disputa, pelo PMB (Partido Municipalista Brasileiro). Acabou tendo a candidatura anulada pelo TSE, por unanimidade.

Claro que o momento agora é bastante diferente. Paira no ar uma certa ânsia por um candidato outsider, um nome de fora da política que possa ganhar o coração dos brasileiros. Nas últimas eleições municipais, dois candidatos mais ou menos com este perfil deram-se bem: João Doria (PSDB) em São Paulo e Alexandre Kalil (PHS) em Belo Horizonte. São universos muito restritos e com influência de fatores locais (em São Paulo, qualquer nome apresentado entraria como favorito, dado o desgaste do PT e do prefeito Haddad).

Uma eleição presidencial é algo bem mais vasto. O candidato precisa falar para todas as regiões e para todas as faixas etárias; ter uma malha partidária espalhada Brasil afora, para tocar o dia a dia sua campanha; fazer alianças, construir palanques; estudar o Brasil, conhecer a situação do país em diversas áreas, aprender noções básicas de várias assuntos, para ter o que dizer nas entrevistas e nos palanques; estar disposto a um enfrentamento como nunca teve na vida (na campanha, nos debates, no dia a dia); ter consciência que sua vida será investigada desde criancinha e o que for encontrado que se possa utilizar contra ele, será utilizado… O Huck é um comunicador talentoso para o seu público (tem 40 milhões de seguidores nas redes sociais e 18 milhões de espectadores), mas tocar uma campanha presidencial não é a mesma coisa que apresentar um programa. Não ponho em dúvida eventuais bons sentimentos dele, mas nunca deu mostras de ser alguém preparado para candidato nem, muito menos, para presidente do Brasil.

Não sei se Francisco José teria ganho a eleição para prefeito do Recife em 1988. O eleito foi Joaquim Francisco (PFL), com 49,51% dos votos, seguido por Marcus Cunha, PMDB (28,52%), João Coelho, PDT (13.88%), Humberto Costa, PT (7,52%) e José Augusto Lins, PH (0,57%). Desconfio, porém, que o nobre jornalista tinha condições de pelo menos chacoalhar esse quadro. O caso de Luciano Huck é diferente. Ele está sendo convidado para entrar numa fria.

Foto: Paulo Belote/TV Globo

* O texto acima retrata única e exclusivamente a opinião do autor.

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