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Quem tem medo de filosofia e sociologia?…

Robson Sávio Reis/ Blog Direito

Sou formado em filosofia e sociologia. E fico indignado com as declarações do trainee de ditador e seu ministro da deseducação – que até agora não apresentou sequer um projeto e/ou ação propositiva no MEC. Uma inoperância do tamanho do conjunto do atual governo.

Fiquem sabendo os arautos de fake News que não se destroem cursos universitários e/ou áreas de conhecimento por decreto. O artigo 207 da Constituição Federal (que consagra a autonomia universitária) é claro: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Mesmo sufocando a área das ciências humanas com a restrição de verbas, esses cursos, por demandarem pouco investimento continuarão a existir. Ademais, sempre haverá estudantes altruístas e autônomos que não aceitam ser meros apertadores de parafusos na engrenagem perversa do capitalismo que precisa de robôs; não de seres pensantes.

A filosofia e a sociologia sempre foram um problema para as mentes preguiçosas; para os ditadores que precisam mobilizar uma massa de zumbis e têm medo da razão; para os capitalistas que querem meros apertadores de parafusos e não pessoas que agem com autonomia; para líderes religiosos charlatães e manipuladores que precisam de fanáticos, penitentes de uma fé cega e serviçal, incapazes de enxergar as várias facetas do controle religioso.

Nosso sistema educacional, desde a fajuta proclamação da república bacharelesca, sempre foi marcado pelo positivismo alienante, incapaz de formar cidadãos autônomos. Por isso, os fanáticos têm tanto ódio de Paulo Freire. E a ditadura militar, através do acordo MEC-USAID, tentou reprimir ao máximo um modelo de educação libertadora e emancipadora. E é por isso, também, que nessa quadra histórica marcada pela assunção de ignorantes e idiotas de todos os quilates e de todas as extirpes ao poder, voltam-se os ataques contra tudo que é relacionado à educação, arte, cultura, autonomia etc.

Como escreveu o filósofo e professor Maurício Abdalla, “a filosofia tem sofrido golpes fatais. Querem-na fora das escolas e das universidades, monopolizada por pseudofilosofias com agendas fundamentalistas e de extrema direita, com reflexões rasas e associações falsas de ideias”. Aliás, astrólogos travestidos de pseudofilósofos são importantíssimos para ocupar o espaço diversionista das redes sociais e mobilizar mentes e corações, dado que a televisão se torna um ópio menos atrativo. É preciso de novos macacos de auditório para manter o povo distraído e mobilizado com futilidades, enquanto os perversos tocam um governo que só sabe destruir e é incapaz de construir, agregar, unir e mobilizar positivamente.

Como revelou o jornalista Jamil Chade, no UOL, estudos apontam que programas de ciências humanas são os mais procurados entre os universitários dos países da OCDE, grupo das economias ricas e do qual o Brasil quer fazer parte. Em média, um terço dos novos estudantes universitários nos países dessa organização entram em programas de ciências sociais (humanas), mais do que o dobro da proporção de novos estudantes em engenharia, produção e construção. Num outro estudo publicado pela OCDE, em novembro 2017, constata-se que os profissionais das ciências sociais são fundamentais para a inovação nos processos empresariais, na organização e estratégias de marketing. Citando ainda dois outros estudos, a publicação aponta que são as pessoas formadas em humanas que vão garantir o centro do trabalho inovador no setor de negócios. De acordo com o levantamento, os estudantes de humanas participam de uma “ampla gama de setores”. A constatação: tais cursos são “importantes para a inovação na economia”. Portanto, o argumento fajuto e mentiroso de Bolsonaro segundo o qual “a função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta” não se sustenta; e só serve para enganar idiotas; ou seja, quem odeia política e se sujeita a uma vida teleguiada pelas determinações dos poderosos e seus prepostos.

Por fim, o conhecimento reflexivo das ciências humanas e sociais, incluída a filosofia, é fundamental para o Estado nas ações de formulação, monitoramento, aperfeiçoamento e avaliação de políticas públicas, assim como para o desenvolvimento crítico das demais ciências. Qualquer país que quer ser autônomo no concerto das nações privilegia as áreas de conhecimento capazes de produzir reflexão crítica.

No momento atual – de inflexão e ataque ao estado social -, as ciências sociais e a filosofia são fundamentais para o conhecimento crítico e reflexivo. Porque uma nova ordem social ainda não nasceu e as velhas estruturas decadentes urram para sobreviver. Observamos uma transição mundial que demanda a reconstrução das sociedades, pautada no paradigma da cidadania, legitimando a equidade, a justiça, a igualdade e a autonomia. É nesse contexto socio-histórico que ciências sociais assumem o desafio de mudar a lógica da construção e socialização do conhecimento; a expandir a capacidade das pessoas de “aprender a aprender”; de governar e controlar o Estado e o mercado. Afinal, na reconstrução de uma sociedade cidadã, as Ciências Humanas e Sociais, garantindo o legítimo e necessário espaço de articulação entre todas as ciências, possibilitam a formação de profissionais comprometidos com a coletividade e com uma nova ordem social que globalize, para além do bem econômico, a solidariedade e o acesso a serviços e políticas que desloquem a centralidade do capital, do mercado e do individualismo para a centralidade ética da vida humana, onde haja espaço de vida  e de realização dignos para todos. Por isso, as ciências sociais e humanas são o “bicho-papão” dos que odeiam ideias como igualdade, justiça, autonomia, criatividade, estética, bondade,beleza etc.

Sabemos que há um chamamento à burrice, à estupidez, à violência, à irracionalidade, ao fanatismo religioso e à estreiteza de pensamento por parte do atual governo. Mas, por outro lado, há sinais de exuberante resistência, movida pelo pensamento crítico, análise de conjuntura, articulação sociopolítica e criativas estratégias de lutas a sinalizarem  vida inteligente e pulsante nesses tempos sombrios. Não nos calarão.

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