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Os mitos e verdades sobre as crianças superdotadas…

Por: Maria Priscila Martins /Folha de Pernambuco

Aprender a falar muito cedo, ler antes de entrar na escola, saber resolver problemas lógicos sem nunca ter tido aula de matemática e ter alta criatividade podem ser características de uma criança superdotada. Para a família, isso nem sempre é notado ou aceito rapidamente. 

A ação conjunta da escola e profissionais da psicologia ajuda a identificar mais facilmente uma pessoa com altas habilidades ou superdotação (AH/SD). Ela apresenta, primordialmente, três características, conhecidas como anéis de Renzulli: quociente intelectual (QI) acima da média, compromisso com a tarefa e criatividade. Uma pessoa com altas habilidades não é, por consequência, um versado em todas as áreas. Ao contrário, o superdotado tende a ser um “especialista” em um ou alguns campos do conhecimento. Facilidade com números, com a comunicação, com artes ou com línguas são exemplos comuns.

A identificação precoce do fenômeno da superdotação faz com que a criança seja educada de uma forma direcionada para sua alta capacidade em algumas áreas, evitando que a ela perca o interesse na escola. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 8% da população mundial tem altas habilidades. Desses, cerca de 10 milhões estão no Brasil.

Em 2017, foram identificados 19.699 alunos com superdotação matriculados na educação básica em todo País, segundo dados do Censo Escolar daquele ano – o último a contabilizar isoladamente a superdotação dentro do grupo de crianças que necessitam de educação especial. Em todo País, núcleos de atividades de altas habilidades/superdotação (Naahs) oferecem atividades e acompanhamento para o estudante superdotado até os 17 anos. No Recife o Naahs, que oferece atendimento pedagógico gratuito direcionado para crianças com AH/SD, atende atualmente 100 crianças. 

“Uma grande dificuldade da criança superdotada na escola é que eles estão acelerados em relação à classe, o nível de dificuldade para eles é muito baixo e o diálogo torna-se difícil” , contou Eloisa Correia Lins, coordenadora do Naahs Recife. Ela explicou que o núcleo trabalha com um viés pedagógico que visa possibilitar a inclusão dessa criança em grupos sociais, sem deixar de desenvolver suas habilidades. “Nós recebemos estudantes que não se identificam com os colegas da escola, muitas vezes por não conseguirem conversar num nível de igual para igual. Aqui eles são colocados com colegas que têm o mesmo discernimento, e isso, junto com o acompanhamento do professor, acaba destravando a criança na escola regular também”, esclareceu.

Para a criança superdotada ser atendida no Naahs é necessário um encaminhamento da escola, pública ou particular, para a Gerência de Educação Especial da Prefeitura do Recife, que encaminha esse ofício para o núcleo. Como o Naahs Recife é o único do Brasil a atender crianças fora da idade escolar, entre 3 e 7 anos, os pais que tenham suspeitas ou indicação psicológica de atendimento suplementar para esta criança, podem buscar ajuda diretamente no Naahs, apenas para crianças fora da idade escolar.

A superdotação pode ser identificada em conjunto com transtornos, como do espectro autista e a hiperatividade. Ao contrário do pensamento comum, a alta habilidade se desenvolve, geralmente para apenas uma ou duas áreas específicas. Portanto, ter dificuldades em alguma disciplina específica ou ter problemas de ordem cognitiva não descartam a superdotação. Em atendimento no Naahs Recife há três meses, Maria Letícia Ferreira Santos, 9, tem superdotação e transtorno do espectro autista (TEA). Em Maria Letícia as Altas Habilidades foram identificadas para o grupo das artes. Para a mãe, Edna Ferreira da Silva, a filha fazer parte de atividades em que ela se sinta livre para criar é gratificante. “Depois que ela entrou no atendimento com o Naahs, e a psicóloga também, ela ficou mais focada e tranquila, aqui ela tem liberdade para criar coisas das quais ela gosta, vai até realizar uma exposição com desenhos sobre unicórnios”, contou. Francisco Alexandrino, professor de artes e experimentos no Naahs falou sobre a importância de se dar liberdade criativa para crianças com Altas Habilidades.

“Maria tem um comportamento específico e nós trabalhamos com as possibilidades para ela, evitando estimular, mas lançando desafios. Faz parte do processo do professor mediador evitar estimular, porque pessoas com altas habilidades não precisam ser estimuladas. Diferentemente da pessoa talentosa, uma pessoa superdotada já tem o potencial e a gente vai canalizando, mediando e trabalhando esse processo do enriquecimento curricular, a partir das áreas de interesse da criança”, explicou. 

Alexandrino trabalha com superdotação no Naahs desde 2015 e diz que a maior parte das crianças com altas habilidades no Brasil ainda não foram identificadas. “Eu passei a vida trabalhando em projetos sociais em que via crianças de rua e pessoas viciadas com habilidades acima da média, sem serem identificadas”, contou. Uma pessoa com altas habilidades sem direcionamento pode sofrer com problemas de socialização. “Quanto mais inteligente você é, mais problemas de ordem psicoemocional você vai ter, tendência a dormir pouco, abuso de bebidas alcoólicas, do cigarro”, exemplificou o professor. 

A especialista em neuropsicologia Winnie Gomes da Silva Barros, 31, falou das dificuldades enfrentadas por uma pessoa com altas habilidades. “Um dos problemas para o superdotado é a questão do perfeccionismo e da baixa auto-estima. É um perfeccionismo tão grande que eles acabam se auto-sabotando. Além disso, essas pessoas precisam de atendimento porque elas têm dificuldades emocionais, sociais e pedagógicas. Então todo o sistema escolar precisa de um ajuste no currículo para que seja interessante para essa criança”, explicou. 

Guilherme Araújo,12, exemplifica bem a diversidade de interesses descrita por Winnie. Ao entrar no Naahs, em 2017, ele fazia parte do grupo de desenvoltura para artes e, recentemente, mudou para robótica. “Eu acho que me dou melhor em artes visuais, era mais fácil, mas não penso em voltar para lá porque eu gosto muito de mexer com a parte mecânica”, disse. Guilherme participa dos torneios de robótica lego, da rede municipal.

Uma família acima da média

De uma troca de cartas entre um paulista e uma pernambucana surgiu uma família diferente. Pais de quatro filhos superdotados, César Augusto de Lima Procídio e Edivânia Maria de Lima Procídio iniciaram o romance há 18 anos, trocando correspondências. “Uma amiga me disse que eu ia adorar conhecer uma pessoa, quando pensei que ela ia me levar para conhecer Edivânia, ela me deu o endereço para trocarmos cartas”, contou César. O casal hoje tem quatro filhos, Helamã Leoni de Lima Procídio, 14, Lamôni Heber de Lima Procídio, 12, Morôni Cesar de Lima Procídio, 6, e Maria Helena de Lima Procídio, 5. Todos classificados como superdotados. 

Morôni foi o primeiro identificado com Altas Habilidades. Mesmo os pais tendo percebido que os irmãos mais velhos, Helamã e Lamôni, eram mais inteligentes que a média, com o pequeno Morôni a família precisou de ajuda externa. Aos dois anos de idade, ele falava apenas inglês. “Falar português ele começou rápido, como os irmãos mais velhos, mas com dois anos ele só se comunicava em inglês e nós tivemos que ir atrás de ajuda, foi assim que descobrimos o Naahs”, lembra Edivânia. Hoje, aos seis anos, Moroni fala português, inglês, espanhol e recebeu a equipe de reportagem falando em russo. “spokoynoy nochi”, disse o pequeno. 

Os irmãos de Lima Procídio possuem habilidades distintas. Helamã fala sobre o universo, a paleontologia, a química, a física e a matemática como se fossem amigas de toda uma vida. Lamôni conta sobre histórias que não encontramos em livros, sobre líderes esquecidos e filósofos marcantes. “Uma coisa que nem todo mundo sabe é que entre o Piauí e o Maranhão existe uma disputa territorial de anos e anos, você sabia?”, perguntava, ansioso em explicar sobre o assunto. Morôni, bom em línguas e raciocínio. Maria, com memória fotográfica e criatividade para artes, parece absorver cada explicação dos irmãos mais velhos. “Mas você já explicou isso antes, não é assim”, repreendia, mesmo sem parecer prestar atenção na conversa.

Questionamentos sobre o motivo de essa família ter tantas pessoas com inteligência excepcional mexe com a cabeça de qualquer um que a conheça. A neuropsicóloga Winnie Gomes acredita que questões genéticas podem estar ligadas ao desenvolvimento de altas habilidades. “Há estudos sobre essa relação sendo feitos. Então, hoje a literatura diz que há um componente de carga hereditária/genética, mas também existe uma questão ambiental.” O meio em que a criança é educada faz com que seja possível ela desenvolver a superdotação.

Para a mãe das crianças, Edivânia – que tem facilidade com as artes e planejamento (há quem desconfie da superdotação dos pais também) -, a educação dos filhos sempre foi algo que se deveria incentivar. “Nós sempre demos muita liberdade e incentivamos nossos filhos a aprender. sempre falamos que não há nada no mundo que não possa ser aprendido e nem ninguém que saiba tudo”, explica. Para a família simples e de inteligência excepcional, faltam ainda maiores oportunidades. “Criamos nossos filhos com muito amor e alegria, apesar de nossa pouca expectativa financeira. Porém, sempre acreditei que conhecimento é um diferencial que trará oportunidades para meus filhos se qualificarem, já que eles têm esse gosto natural por conhecer o mundo”, concluiu.

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