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Novo coronavírus traz diferentes riscos de contágio em cada lugar

Por Artur Ferraz/via Folha de Pernambuco

Com um saldo de mais de 9 milhões de casos e 220 mil mortes confirmadas, a pandemia provocada pelo novo coronavírus completa, no final deste mês, um ano no Brasil.

Foi na última Quarta-Feira de Cinzas, 26 de fevereiro de 2020, que o Governo de São Paulo confirmou o diagnóstico de um homem de 61 anos que, poucos dias antes, havia retornado de uma viagem à Itália, um dos primeiros países ocidentais a sofrer com a escalada da crise sanitária enquanto por aqui se brincava o Carnaval. Como se um aviso do destino nos dissesse para aproveitar, ao máximo, qualquer dose de folia antes que os difíceis novos tempos chegassem.

Onze meses depois, a rotina continua restritiva. Só em Pernambuco, os números de casos diários atingem a casa dos milhares, enquanto os de mortes variam de uma a três dezenas.
 
São altos. Depois de um período de estabilidade e queda no segundo semestre, permitindo uma flexibilização nas restrições nos diversos setores econômicos, a curva voltou a subir em dezembro, comprometendo as festas de Natal e Ano-Novo.

É nesse contexto que o País começa a vacinar a população, o que, de fato, traz uma projeção de saída da pandemia. Mas isso não vai se concretizar nem tão cedo, visto que a entrega de insumos e a distribuição de doses seguem um ritmo lento.

Até agora, menos de 2% dos brasileiros tomaram a vacina – muito longe dos 70% necessários para se atingir a imunidade coletiva. Por isso, até que se retorne a uma situação de maior segurança sanitária, os cuidados de prevenção à Covid-19, em especial o uso de máscara, a lavagem das mãos e o distanciamento social, devem ser mantidos.

Por outro lado, desde novembro, vigora no Estado o “novo normal”. Isso significa que a maioria dos escritórios, estabelecimentos comerciais e áreas de serviço e lazer – além das escolas, que voltaram a funcionar nesta semana – têm permissão para abrir desde que cumpram protocolos baseados naqueles cuidados mencionados no parágrafo anterior. Daí vem o alerta.

Agente infeccioso transmitido por vias respiratórias, o Sars-Cov-2, nome científico do novo coronavírus, se espalha com facilidade por qualquer lugar, em superfícies das mais diversas, inclusive em pisos e paredes, embora a principal forma de transmissão continue sendo de uma pessoa para outra, por meio de tosse, espirro e fala, com a liberação de gotículas de saliva.

Em estudo divulgado em maio do ano passado, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) procuraram avaliar a presença do vírus em locais de grande circulação próximos a unidades de saúde em Belo Horizonte. Foram analisados cerca de mil pontos em paradas de ônibus, calçadas e praças. Em 50 deles, o micro-organismo foi encontrado.

“Não sei dizer se é uma taxa baixa ou alta porque foi a primeira análise desse tipo”, pondera o professor de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da instituição, Jônatas Abrahão. “O que o estudo mostra não é necessariamente o risco de transmissão por superfície, mas que pessoas infectadas estão circulando nessa região e contaminando os aparelhos públicos”.

Para detectar essa presença, foram coletadas amostras por uma metodologia semelhante à do exame RT-PCR, em que é extraído um fragmento de secreção de um paciente suspeito por meio de um cotonete inserido no nariz.
 
“Utilizamos uma haste com algodão na ponta e passamos em uma área de dez centímetros quadrados. Depois, levamos o material ao laboratório, e a análise é bem parecida com a do teste. Extraímos o material genético com um kit”, explica Abrahão.

Embora não haja uma precisão sobre o quanto de carga viral em uma superfície seria suficiente para contaminar alguém, sabe-se que manter a higiene das mãos e evitar tocar o rosto são determinantes para se evitar a infecção.
 
“Existe um risco [pelo contato com objetos], mas a gente não sabe medir. O que a gente sabe é que uma pessoa infectada pode compartilhar um ponto de ônibus com alguém não infectado, e aí a transmissão pode acontecer pelo ar”, diz o professor Jônatas Abrahão.

Mesmo em lugares abertos, como o Parque da Jaqueira, é preciso usar máscara

Mesmo em lugares abertos, como o Parque da Jaqueira, no Recife, é preciso caminhar de máscara (Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco)

Pontos de risco
Como a principal forma de contaminação ocorre pelas vias respiratórias, o grau de exposição ao vírus em cada lugar depende de fatores sociais. Pesquisadores de universidades norte-americanas projetaram uma escala, dividida por “risco baixo”, “médio” e “alto”, para os tipos de ambiente e atividade comuns no dia a dia (veja no infográfico abaixo). Entre os critérios que servem de base para a classificação, estão a ventilação dos espaços e a possibilidade de gerar aglomerações.

A escala parte de locais abertos, como parques e praias, onde atividades como caminhada, corrida de bicicleta e piquenique ao ar livre são consideradas de baixo risco. Pesquisador do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz-PE) e chefe do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP) do Hospital das Clínicas de Pernambuco (HC-UFPE), o infectologista Paulo Sergio Ramos lembra, porém, que, mesmo nesses lugares, não se pode relaxar nos cuidados.
 
“Esses locais, por serem arejados, fazem com que as pessoas tenham uma tendência a frequentá-los sem máscara”, afirma. “Além disso, superfícies de cadeiras, mesas e bancos compartilhados por muitos usuários podem também aumentar o risco”. O documento dos pesquisadores estadunidenses recorda ainda o potencial de atrair multidões, o que precisa ser evitado.

Os locais a que se deve ter mais atenção, e classificados como de risco alto do ponto de vista epidemiológico, são os ambientes fechados e capazes de juntar muita gente em uma área pequena. É o caso de cinemas, teatros, templos religiosos, avião e transporte público, mas também de boates e casas de festas e shows, onde o consumo de bebida alcoólica favorece o descuido com os protocolos de segurança.

À parte, ficam as escolas, que congregam diferentes tipos de espaços de convivência e reúnem pessoas de diversas faixas etárias. Por isso, as instituições obedecem a protocolos específicos, sempre levando em conta a necessidade do uso de máscara e o distanciamento social.

Infográfico - Riscos de contágio por covid-19

Cuidados
Para entender como as pessoas estão buscando se prevenir do coronavírus, a Folha de Pernambuco percorreu espaços de grande circulação no Recife. Morador de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, o comerciante Jean Rildo da Silva Júnior, de 20 anos, vai todos os dias à praia de Boa Viagem, na cidade vizinha, onde vende lanches e bebidas.
 
Com máscara e borrifador de álcool nas mãos, ele conta que perdeu um tio para a Covid-19 e que a avó, a dona da barraca onde trabalha, também teve a doença e chegou a ficar entubada.

Desde então, redobra os cuidados. “Aqui os clientes só entram de máscara”, afirma. “A circulação é muito grande, e o vento também. Às vezes, a pessoa passa, dá uma tossida, sem máscara, não vê, bate em outra pessoa, que esfrega o rosto sem querer. Tem que ter sempre cuidado. Então, quando eu chego em casa, já deixo a máscara de molho e vou direto para o banheiro”.

O estudante Elias Germano de Oliveira Júnior, 23, costuma caminhar pela orla de Boa Viagem. Mesmo andando ao ar livre, ele diz que não deixa de usar a máscara. “Tem perigo e, de certa forma, grande, porque a gente passa e respira perto de muitas pessoas”, comenta.

Outro espaço que preocupa é o transporte público. Profissional de saúde que atua no atendimento a pacientes com Covid-19, a técnica de enfermagem Iara Amaral, 37, usa o ônibus e o metrô para sair de casa, em Jaboatão, para os dois locais de trabalho, em Santo Amaro, Zona Norte do Recife, e em Olinda.
 
No trajeto, ela identifica muitos passageiros que não seguem os protocolos. “Eu encontro muitas pessoas que não usam máscara e não se cuidam. Acho que não dão muito crédito a esse vírus. Mas a gente vê a realidade nos hospitais e muitas famílias perdendo parentes por conta desse descuido”, avalia.

Por meio de nota, a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) informou que está com 50% da demanda de usuários e que, na linha Centro, circulam dez trens com intervalo de oito minutos e pediu a compreensão dos passageiros para que, caso a lotação fique “acima do normal”, esperem a próxima composição.
 
O órgão destacou ainda ter reforçado a limpeza das estações e dos trens durante a pandemia e que o uso de máscara é obrigatório em todo o sistema de metrô. A empresa também disse realizar, desde março do ano passado, uma campanha educativa contra o coronavírus.

O Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano (GRCTM) também se manifestou por nota, dizendo que a fiscalização do uso de máscara dentro dos terminais é feita de forma educativa e que já distribuiu 38 mil peças para quem não tinha o protetor.
 
Já dentro dos ônibus, o órgão informou que o motorista tem o poder de solicitar o uso do acessório aos passageiros e as empresas operadoras devem instruir motoristas, fiscais e cobradores sobre a importância do uso do item de proteção. Sobre a lotação dos veículos, o consórcio afirmou que, desde 25 de janeiro, 100 coletivos voltaram a circular, reforçando a frota das linhas mais movimentadas, e que, na próxima semana, mais 50 ônibus estarão novamente à disposição dos usuários.

Por medo do contágio, há quem prefira fazer exercícios ao ar livre do que em academias fechadas. O autônomo Anderson Oliveira, 36, é uma dessas pessoas. Ele mora no bairro da Torre e, quatro vezes por semana, atravessa a ponte para se exercitar na Jaqueira, Zona Norte da Cidade.
 
“Eu acho melhor porque é mais ventilado”, comenta. Aluno da Academia Recife no parque, Carlos Barbosa, 32, vai todos os dias. “A gente só pode entrar de máscara e, na entrada, recebe álcool e um pano [para passar nas máquinas]”, conta. “Quando eu chego em casa, deixo os sapatos fora, boto a roupa para lavar e tomo um banho”.

Infectologista do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), o médico Bruno Ishigami avalia que o risco de contágio pela roupa é pequeno e, por isso, não requer um cuidado diferente do que já se toma cotidianamente ao colocar as peças para lavar.
 
“O mais importante é que a gente consiga manter o foco no uso de máscara de forma adequada, cobrindo boca e nariz, para garantir uma vedação e impedir que o vírus chegue às vias respiratórias”, argumenta.

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