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Codeputada estadual, Robeyoncé Lima busca ser a primeira parlamentar travesti da Câmara

Foto: Jonathan Lima/divulgação

Por: João Victor Paiva/Diário de Pernambuco – De acordo com Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 2022 deve ser o ano com o maior número de candidaturas de travestis e transexuais na história da política brasileira. Em 2018, 54 candidatura foram registradas. Destas, três foram eleitas. Uma delas é a advogada pernambucana Robeyoncé Lima. Filiada ao PSOL, ela é co-deputada estadual no mandato coletivo Juntas e, nas eleições deste ano, disputará o cargo de deputada federal, na tentativa de levar, pela primeira vez, a comunidade trans ao Congresso Nacional. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, Robeyoncé comentou sobre temas relativos à política partidária, a cisnormatividade ainda presente nas instituições e a importância de disputar esses espaços.
O começo
A vida da gente já é um ativismo político por si só. A partir do momento que a gente nasce num país de extrema desigualdade, a gente, enquanto um corpo trans, negro… então, desde que a gente está no mundo, a gente termina se incrustando na política. Agora, na política institucional propriamente, a política partidária começou a 5, 6 anos atrás, em 2016, 2017, quando eu era assessora do vereador Ivan Moraes [PSOL], mas ativismo político desde sempre, no movimento estudantil, em protestos, manifestações.
O partido
Eu já tinha uma certa proximidade com o PSOL. A partir do momento que eu comecei a trabalhar no gabinete de Ivan Moraes, essa proximidade com o partido e com a política institucional foi se estreitando e chegou o momento que eu tomei a decisão de me filiar a um partido político entendendo a necessidade de também construir legendas partidárias – construir a pauta LGBTQIA+, de enfretamento ao racismo, de classe – e entendendo que a legenda partidária é mais um dos espaços que é necessário fazer incidência.
PSB e o governo do estado
A gente tem no governo do estado a sede do governo, por exemplo, é o Palácio do Campo das Princesas, mas nunca teve uma governadora mulher. A nossa candidata [ao Governo de Pernambuco] em 2018 foi Dani Portela, inclusive, ficou em terceiro lugar com quase 200 mil votos, e isso demonstra o quanto a gente precisa renovar na política. Não somente na questão do partido, que há mais de uma década o PSB está no governo do estado, mas como a gente renova os próprios políticos mesmo. Quando é que o governo do estado vai ter uma governadora mulher, por exemplo? A gente, dentro do PSOL, decidiu ter candidatura própria. Nossa postura em relação ao governo do estado é justamente fazer oposição e fazer esse questionamento de: quanto tempo quanto mais o PSB vai ficar nos domínios do governo do estado e também de tantas prefeituras? Mas, também, como é que a gente renova essa cara da política? Como é que a gente se coloca não somente de criticar a imutabilidade do partido, mas também como é que a gente pode estar renovando essa política de uma maneira geral, não somente no executivo, mas também no legislativo.
Espaços institucionais
O sistema cisnormativo reflete nos números até hoje, por exemplo, no Congresso Nacional a gente nunca teve parlamentar trans. Inclusive, nessa eleição de 2022, a gente está tendo a primeira oportunidade de eleger uma bancada de pessoas trans no Congresso Nacional. Esse foi um dos fatores principais de eu ter tomado a decisão de sair [candidata] para [deputada] federal. Essa ausência de pessoas LGBTQIA no Congresso Nacional reflete o quanto os direitos de nossa população são injulgáveis, não existe leis propriamente porque não existe ninguém lá no Congresso para defender leis a nosso favor. Então, quando você faz um resgate histórico, por exemplo, o reconhecimento da união estável homoafetiva veio a partir do Judiciário; a possibilidade de ir no cartório mudar o nome veio a partir do Judiciário; a criminalização da LGBTfobia veio a partir do Judiciário; e, mais recentemente, a decisão, mais uma vez do Judiciário, de considerar que a Lei Maria da Penha é aplicada para mulheres trans. Então, a gente tem esse cenário, devido à ausência de parlamentares LGBTQIA no Congresso, que a nossa cidadania é dada pelo poder Judiciário, não pelo Legislativo. A gente tem uma cidadania que é julgada, e não legislada. Até quando a gente vai ficar desse jeito?
Representatividade
É [a necessidade de] ser protagonista em primeira pessoa. Eu faço e nós fazemos. Até que ponto a gente vai ter que delegar as nossas pautas para outras pessoas? Mesmo que existam parlamentares lá de esquerda, no Congresso Nacional, que defendam nossas pautas, é um número muito pequeno ainda. A gente sabe que a gente tem um Congresso Nacional majoritariamente formado por uma bancada BBB (que é bancada do boi, da Bíblia e da bala). Isso é a grande parte das cadeiras no parlamento. Você acha, por exemplo, que eles vão estar interessados e interessadas em defender a pauta da diversidade, a pauta da população LGBTQIA , de enfrentamento ao racismo, a pauta das mulheres, a pauta da luta de classes, dos trabalhadores? Não têm interesse. 
Eleitores não LGBTQIA
Uma política pública que se coloca para proteger a população mais vulnerável não vai beneficiar somente essa população, mas vai benificiar a sociedade como um todo. Um mandato que pretende, por exemplo, combater as desigualdades, erradicar a fome no Brasil, é um mandato que vai beneficiar não só a população que está na miséria, mas a sociedade toda. Então, é necessário ter uma visão mais ampla, e não somente aquela questão de “o que que vai me benificiar uma candidatura LGBTQIA , enquanto eu [sou uma] pessoa branca, cisgênera? O que eu tenho a ver com isso?” Tem. A gente tem que ter responsabilidade social e perceber que a camada mais vulnerável ganhando, a sociedade ganha. E quando a gente parte desse pressuposto, a gente parte no sentido de entender que a redução das desigualdades, a redução da violência e uma cidadania digna para todo mundo é uma qualidade de vida que vai ser melhor para todo mundo. 

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