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Arcebispo critica flexibilização da posse de armas

Folha de Pernambuco

O arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife (AOR), dom Fernando Saburidocriticou o decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro que flexibiliza a posse de armas no Brasil em carta divulgada nessa quinta-feira (17). 

No texto, intitulado “A Paz é fruto da justiça”, o sacerdote cita passagens bíblicas para falar à sociedade sobre a medida. Ele ainda se mostrou contrário à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

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Dom Fernando inicia a carta afirmando que, em consciência, sente-se obrigado a se posicionar publicamente contra as medidas do governo. “Quero lembrar às pessoas que se consideram cristãs a palavra de Jesus dirigida ao Apóstolo Pedro no Horto das Oliveiras: ‘Guarda a tua espada (a tua arma). Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão‘ (Mt 26,52)”, citou. Ele completa citando outro ensinamento de Cristo. “Conforme Jesus nos ensina, ‘bem-aventurados os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus’ (Mt 5,9)”, acrescentou.

Saburido afirmou que disseminar armas entre os cidadãos não deverá diminuir a violência. “Ao contrário, ainda mais a agravará, basta ver o exemplo de outros países. As empresas fabricantes de armas é que ganharão com essas medidas”. Em contrapartida, ele recomenda investir em educação e cultura, principalmente para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade. “Qualquer nação que se preza sabe, perfeitamente, que somente um povo bem educado poderá evoluir individual e comunitariamente, sem esquecer a educação da fé. É o único caminho a trilhar para garantir um Brasil melhor, próspero e pacífico“, alertou.

Por fim, dom Fernando pede aos membros da AOR – entre padres, religiosos, religiosas e leigos – que saibam discernir o “que é correto e justo e não deem um testemunho contrário ao espírito do Evangelho“. O arcebispo recorda ainda as figuras de dom Hélder Câmara, conhecido como o Dom da Paz, “que liderou no Brasil a Ação Justiça e Paz”, e de dom Oscar Romero, agora canonizado, que morreu em prol do fim da violência em El Salvador.

Leia a carta na íntegra:
“A Paz é fruto da justiça”

Os meios de comunicação social vêm noticiando que o Presidente da República assinou decreto que facilita a posse de armas de fogo para a população civil brasileira e declara que esse é o primeiro passo no cumprimento de uma das principais promessas de campanha. Nesse campo, outras mudanças virão. Foi prometido também empenho para a redução da maioridade penal para 16 anos, quando deveria sim, haver empenho para investimento na área da educação e cultura, sobretudo das nossas crianças, adolescentes e jovens, em situação de vulnerabilidade. Qualquer nação que se preza sabe, perfeitamente, que somente um povo bem educado poderá evoluir individual e comunitariamente, sem esquecer a educação da fé. É o único caminho a trilhar para garantir um Brasil melhor, próspero e pacífico.

Como cristãos, discípulos de Jesus e como pastor desse povo de Deus, já vítima de tantas violências cotidianas, em consciência, me sinto obrigado a me posicionar publicamente contra essas medidas. Quero lembrar às pessoas que se consideram cristãs a palavra de Jesus dirigida ao Apóstolo Pedro no Horto das Oliveiras: “Guarda a tua espada (a tua arma). Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Quem quer viver como filho ou filha de Deus, deve refletir o seu caráter de Amor incondicional. Conforme Jesus nos ensina, “bem-aventurados os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Atualmente, os meios para garantir maior lucro às indústrias de armas pessoais é a violência cotidiana. De fato, esta tem aumentado e sempre provoca insegurança e a revolta das pessoas. Disseminar armas entre os cidadãos, porém, não somente não diminuirá a violência, como, ao contrário, ainda mais a agravará, basta ver o exemplo de outros países. As empresas fabricantes de armas é que ganharão com essas medidas.

Há dez anos (em 2009) a CNBB tomou como tema da Campanha da Fraternidade: A Fraternidade e Segurança Pública. E o lema era a palavra de Isaías 32, 17 que tomei como título dessa declaração: A paz é fruto da justiça. Isso significa que a segurança pública não se resolverá apenas por medidas policiais e menos ainda por linguagens que incitam a violência e o ódio em meio às pessoas. De acordo com a Bíblia, só o cuidado com a justiça social e uma educação para o respeito aos direitos de todos, podem nos conduzir ao Brasil que desejamos e com o qual sonhamos.

Espero que todos os irmãos e irmãs que constituem as forças vivas da nossa arquidiocese, padres, religiosos, religiosas e leigos/as, saibam discernir o que é correto e justo e não deem um testemunho contrário ao espírito do Evangelho. Recordo a todos que os nossos exemplos de pastores devem ser Dom Hélder Câmara, servo de Deus que liderou no Brasil a Ação Justiça e Paz através da não violência e o bispo Dom Oscar Romero, agora canonizado, que deu a vida para acabar com a violência em El Salvador.

Por seu modo de ser e de viver, revelemo-nos discípulos/as de Jesus. “Ele é a nossa paz. (…) Em sua carne, derrubou o muro de inimizade que separava os povos e quis assim formar um só homem novo, estabelecendo a paz” (Ef 2, 14–15).

Recife, 17 de janeiro de 2019

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo de Olinda e Recife

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