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No auge da sua exitosa carreira o piloto Ayrton Senna, tido como o melhor da história da Fórmula 1, foi analisado, avaliado, dissecado, por vários ângulos por quem desejava encontrar explicação para tanto talento. Em dado momento alguém, salvo leve engano um jornalista inglês, disse que o que fazia de Senna um piloto excepcional era o jeitinho brasileiro de guiar o carro e cujo ouvido dialogava eficientemente com sua máquina. Idiossincrasia brasileira nas curvas, nas ultrapassagens, nas marchas o levava ao pódio diante do espanto de alguns concorrentes. É possível algo assim? Não sei, há sociólogos e antropólogos dizendo que sim.
Entretanto, essa capacidade de improvisar, de manifestar um espírito criativo que marcaria a cultura do brasileiro na hora de alcançar determinado beneficio pessoal está revelando também sua faceta perversa. E atrás delas muitos se escondem.
Um grupo de pesquisadores, inclusive estrangeiros, estudou a questão e concluiu que “a relação entre moralidade e jeitinho é especialmente curiosa, pois alguns afirmam que a prática generalizada do jeitinho cria condições para o estabelecimento de um clima de cinismo e delinquência para julgar moralmente as ações dos outros, além de modificar a maneira como atos morais são julgados pelas pessoas”.
Vamos pegar o caso da semana passada (segundo a Folha de S.Paulo): “Verbas destinadas a obras públicas pelo líder do PMDB na Câmara, Enrique Eduardo Alves (RN), foram parar na empresa de um assessor do próprio deputado”. Coisa de gênio? Ou coisa de malandro? Pode uma coisa dessas? Não poucos entendidos no assunto destacaram que legalmente não existe buraco no procedimento desse parlamentar, ele seguiu o trâmite estabelecido no parlamento. Certo, é legal essa malandragem, mas moralmente isso é aceitável?
Além do jeitinho (na prática certa mania de inventar desculpas para fazer a coisa errada) nosso cotidiano mostra lista interminável de atitudes que revelam uma moral bastante elástica de nossa parte. Quando listamos o que somos capazes de fazer ficamos quase encabulados para condenar a atitude desse parlamentar. Creio que é interessante refletir a respeito, pois temos incorporados atitudes inadequadas, moralmente condenáveis, com as desculpas mais incríveis. Como por exemplo, ocupar a vaga para o portador de deficiência no estacionamento sob a alegação de que ela estava vazia…e por aí vai….

Dimas Santos

Se conseguíssemos responder a esta interpelação com toda esta satisfação, possivelmente não estaríamos no Brasil. Respondemos, entretanto, que somos professores porque possuímos vocação, ou porque queremos contribuir com o futuro do País, ou ainda porque acreditamos nos jovens de nossa cidade. Ninguém ingressa em um curso de licenciatura com o objetivo de enriquecer, muito pelo contrário, na educação básica pública os professores necessitam trabalhar 60 horas por semana (manhã, tarde e noite), para satisfazer necessidades básicas tais como: moradia, transporte, alimentação, água e luz. E se esse professor for mãe ou pai de família então nem se fala.
Ganhamos pouco, e ainda por cima temos que fazer verdadeiros malabarismos para conseguir ministrar aulas. Como professor de Educação Física, a primeira coisa que aprendemos é improvisar, improvisar um cone com uma garrafa PET de dois litros, improvisar uma rede de vôlei com uma simples corda, improvisar uma quadra em terrenos baldios cedidos por vizinhos de bom coração.
A educação pública não nos permite que seja muito diferente. Mesmo assim estamos lá, firmes e fortes, dispostos a transmitir humildemente parte de nossos conhecimentos para nossos alunos, somos reconhecidos por isso? Algumas vezes sim, porém nem sempre. Alguns alunos não se dedicam, não fazem trabalhos, matam aula, enfim, são totais desinteressados e a culpa e de quem?
É lógico que é do professor, a aula do professor é sempre ruim, e, muitas vezes, adjetivada com expressões ofensivas, pejorativas as quais não necessitam ser citadas nesse texto.
O professor está sempre errado, errado por querer dar aula de Educação Física contrapondo a cultura de largar a bola e tomar chimarrão, errado por fazer valer seu direito constitucional a greve, errado por cobrar interesse de seus alunos.
Paradoxal que um professor em início de carreira esteja escrevendo estas poucas linhas, o grande problema é que a maioria de nós gosta do que faz, e tenta passar por cima de todos os percalços que nossa profissão nos impõe, sejam as portas fechadas dos governos, seja a contrariedade da opinião pública, seja o desinteresse dos alunos.
Então, por que ser professor? Gostamos do que fazemos, talvez sejamos até mesmo masoquistas, mas não nos rendemos ao sistema, cansados, esgotados e até mesmo indignados estaremos lá, na porta da sala de aula no dia seguinte, pois lá estarão também os bons alunos, os interessados, enfim, o percentual de estudantes que nos faz acreditar nos valores da educação.
DIMAS SANTOS